quarta-feira, 30 de maio de 2007

Para pensar...

Um post da Lu fez-me pensar num conceito interessante... O conceito de "resiliência".

E então socorri-me de um artigo da Análise Psicológica para ler um pouco sobre o assunto... E descobri coisas de que não tinha conhecimento... Como por exemplo, fala-se em "resiliência individual" e em "resiliência familiar". E achei este último conceito também muito interessante...

Vejamos...

Demos (1989, cit. Por Gonçalves, 2003) “define a resiliência familiar como um conjunto de características que incluem a capacidade da família ter um funcionamento flexível e uma função de contenção dos problemas, sem os deixar invadir outros domínios do funcionamento familiar ou interferir no funcionamento da criança” (p. 24).

Quanto à resiliência individual, segundo Gonçalves (2003), “a capacidade duma criança dar respostas adaptadas face à adversidade, sem que esta interfira no seu desenvolvimento, ou seja a resiliência individual não é um factor inato, estático. É um conceito evolutivo e interactivo, que depende em grande parte da qualidade das relações pais-crianças” (p. 24).

Depois fiz uma pesquisa sobre "resiliência" no google e apareceram muitos sites com informação... Desde livros, a conferências sobre o tema (uma no ISPA), a cursos sobre o tema, a uma formação com o tema "Intervenção Sistémica em Contextos Minoritários" (do ACIME) que incluia um módulo sobre resiliência familiar, a artigos científicos, e outros menos...

Bem, mas o conceito de resiliência que veio da Física, encontra-se já associado aos sistemas WEB, ao mundo dos negócios, à cultura, à comunicação, às organizações, etc.

Mais um conceito na moda? Talvez...

Ainda assim, enquanto psicólogas (ou futuras...), a "resiliência individual", bem como a "resiliência familiar" são conceitos a ter presentes, que podem ajudar a compreender tanto as crianças (as pessoas, em geral) que superam traumas graves de forma inexplicável, como as crianças (as pessoas, em geral) que não os ultrapassam...

Se vos interessar o tema...

Cyrulnik, B. (2003) Resiliência: Essa Inaudita Capacidade de Construção Humana. Lisboa: Edições Piaget.

Gonçalves, M. J. (2003). Aumentar a resiliência das crianças vítimas de violência. Análise Psicológica, 1, 23-30.

Melillo, A. (2005). Resiliência: Descobrindo as Próprias Fortalezas. Porto Alegre: Artmed.

Complicado mais complicado, não há!

Lurdes:

Sim, tenho mais complicado do que isso... preparada?

vendo de novo o desenhor carinhoso que a Andreia aqui pôs ontem...

Lembrei-me no outro dia que, quando fiz o estágio com os velhotes no Centro Comunitário, uma delas -- à mesa (!) -- disse para outra, com intenções pouco cristãs : "Tu querias era que te regassem a florzinha!"

Somos ou não somos bichos (sempre é melhor do que bichas!) complicados, que até desencantamos significados inocentes e pouco óbvios para "regarmos a nossa florzinha"?

Ah, mon Dieu de la France, donnez moi de la pacience...

terça-feira, 29 de maio de 2007

Cara Pipioca:

Sim, miúda, eu sei que não tens relações escaranfuchadas com mais ninguém.

E gostei muito do termo, e aplica-se, sobretudo a mim, bem sei... :)

Gosto de escaranfuchar... Qual bicho da madeira!

Pior, até me orgulho disso! (Vá lá a gente entender esta mulher!)

Bom, mas às vezes é preciso escaranfuchar... - declaro.

Quando são precisas respostas para acontecimentos/comportamentos/seja o que for, que não se entendem, se calhar por serem tão diferentes dos nossos (meus, neste caso)... - justifico eu.

Porque a falta de tempo soa-me sempre a desculpa esfarrapada e estou a ser franca, por um lado, e a generalizar por outro, porque não estou a falar só para ti, mas para o mundo. - desabafo.

É assim o meu protesto para todo o mundo:

- Não gosto nada desta coisa da falta de tempo!

Porque a falta de tempo só é desculpa para algumas coisas... Há tempo para umas coisas e para outras não há... Sabemos disso. E às vezes não gosto de me incluir nas coisas para as quais não há tempo, na vida de algumas pessoas significativas... Como tu, minha querida Pipioca. E isto é humano...

Pronto, e lá estou eu a dizer coisas duras com a tranquilidade de uma chávena de chá como alguém significativo (Lu) me disse... Mas sei que gostas da minha franqueza, (dos meus "tomates" - como tu dizes - tão fofinha! foi dos melhores elogios que me fizeram, e sabes que não estou a ser irónica :) ).

Somos muito diferentes, todas... E a diferença é um desafio (sem dúvida alguma... mas é riqueza... e conflitos cognitivos, pela certa... e logo, crescimento! que bom!!!), portanto, tenho de aprender, aliás, temos, em geral - eu a defender-me - de aprender a lidar com as nossas diferenças, também de entrega, também de não querer escaranfuchar e querer só (e não digo que é pouco) passar bons tempos, pielas, ou lá o que for...

O problema é que às vezes preciso de compreender o que se passa, para depois me rir com a piela, em vez de (ter motivos para) chorar...

Topas, miúda? ;)

Bom, e não estou a fazer drama nem a teorizar, estou só a falar (é bom poder falar abertamente) de coisas sérias, porque as amizades são coisas muito sérias, mesmo que tenham muita macacada, muita palhaçada pelo meio... Não é? :)

Um beijo grande para ti e para todas...

"Como farei sem ti?"

Aprovada

A minha candidatura de projecto de Serviço de Voluntariado Europeu (EVS) foi aprovada pela Agência Nacional Húngara, a entidade responsável por ditar quem vai e quem fica.

Eu vou... (?).

São as primeiras a quem digo isto. Dizendo-vos, digo-mo a mim.

(Ainda em choque)

segunda-feira, 28 de maio de 2007

U-R-G-E-N-T-E!

Depois deste meu último post, fiquei com muiiitttasss saudades! u-r-g-e-nt-t-e: matar estas saudades o quanto antes!

E que tal este fim-de-semana estarmos juntas? (se tivesse a casa livre, lá me punha eu de avental e aviava um pirex no forno. Ouviste, Nessita? Comida feita no forno... Mas não estou sozinha! azarito.)

Café, esplanada?

Beijito, até breve

P.S.: já viram que temos um blog cada mais "saboroso"?

Diferentes compreensões!

Andreia e todas as amigas:

Não tenho a compreensão (mais do que racional ou teórica, é emocional e afectiva) que a Andreia partilhou num comentário a um comentário meu do seu último post, da nossa relação. Entre nós as duas, e entre mim e cada uma de nós, "as amigas do ISPA".

Seria previsível que com os horários desencontrados, lugares de rotina já não partilhados, nos víssemos menos vezes. Isso não quer dizer que não pense em vocês, não queira saber de vocês e das vossas vidinhas, não me lembre no dia-a-dia de vocês, por acasos e propósitos.

Não me agrada quando não me posso encontrar convosco, seja por eu, ou alguém, desmarcar.

Não é concerteza o local indicado para partilhar este desabafo -- porque me falta a linguagem não-verbal, o calor que emanamos às outras -- mas a mim, que não tenho estado presente fisicamente nos últimos encontros (tenho isso consciente), parece-me que andamos todas a teorizar muito... Eu não tenho este tipo de relação tão escarafunchada com mais nenhum amigo, e sinto que também não o preciso, ou que o contrário seja sinal de superficialidade ou desleixe.

Não sei... como o risco de tudo isto ser mal-interpretado, mas, da minha parte, estamos todas é a precisar de apanhar uma g´anda piela juntas e gozar com a que estiver mais bêbada! (Ai, o aniv. da Cristina foi tão prolífero nesta área do trágico-cómico...).

UM beijito GGRRRAAAANDE a todas.

Sara.

Brinde (mos)


Um brinde ao nosso blog e à dinâmica que (quase) todas nós lhe temos atribuído. Assim vamos mantendo alguma chama acesa e sabendo umas das outras! Estou a adorar a experiência de trocar coisas interessantes, engraçadas, giras ou sei lá mais o quê, com todas vós.

Beijinho

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Engate de Bairro de Lata

Esta vida de solteira tem daquelas coisas... não se vê nada de nada, não se conhecem pessoas novas, não há engates, não há flirts, não há romance, mas há surpresas de vez em quando (umas boas outras más).

Ontem entrámos num bairro de tráfico - um bairro de Lata. No inicio do bairro estavam 3 indivíduos a conversar, de idades de 36 anos, 53 anos e 27 anos. Os primeiros dois individuos conversaram connosco, explicaram-nos as suas necessidades e falaram-nos um pouco de sí. O tipo de 27 anos mostrou-se um pintas.

Mais tarde na conversa ele ofereceu-se para nos mostrar um pouco do bairro - claro que aproveitámos a oportunidade, assim não iriamos sózinhas, mas sim com um indivíduo que conhece todos os cantos. O tipo pediu-nos só um instante, porque precisava de ir a casa - foi beber umas cervejinhas - percebemos depois.

Meio embriagado voltou, e se já se tinha entretido até aí a mandar uns piropos, a partir daí até me começou a tratar por tu.... Só o contexto é que era desadequado, porque aquilo parecia mesmo um engate daqueles de discoteca. O mais engraçado foi quando o tipo se espalha no chão no meio das ervas pois o alcool não perdou.

Ah, mas uma pessoa tem de estabelecer limites... "Já me tá a tratar por tu?"

Ainda assim no fim pediu dois beijinhos e disse que eu não era para brincadeiras (ou qualquer coisa assim do género). Ahhh pois não! Devia pensar que eu lhe ir dar bola, não? E por ele eu até podia lá ficar nas barracas!

E esta hein?

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Devaneios sobre relações e ralações...

Ehehhe! Lu, a imagem está demais!!! E sim, o tipo encontra muito rápido a solução... É assim tipo receita-rápida. Aquilo que sempre ouvimos dizer que não funciona. Aquilo que sabemos (na própria pele) que não funciona...

Isto de ser gaja, e falo de sermos amigas gajas, (e gajas de psicologia, e ainda, gajas com algum percurso de auto-conhecimento - vamos pôr assim, que dá um ar místico e ninguém sabe ao certo ao que me refiro ;) ) tem muito que se lhe diga.... Oh se tem!

Esta nossa mania de querer melhorar as relações interpessoais; de querer limpar as ervinhas daninhas e regar (o raio) da plantinha; de resolver todos os conflitos e mais alguns (que se inventam? bom, não me parece... podem ser equívocos, sim, concordo, mas não todos!!! e os equívocos também têm de ser resolvidos, ou um dia nem estaremos a falar na mesma língua...); de falar dos nossos sentires, (o que não é nada fácil...); de abrir o livro dos nossos medos, desejos, ambições, mágoas (sabendo que talvez magoemos quem nos ouve...); esta mania de querer caminhar para a perfeição, embora saibamos que é impossível, mas pelo menos, para um estado (ou estádio até) de maior lucidez acerca do que somos, e do que somos e podemos ser nas relações; esta mania de querer crescer é tramada! :) Bolas! Que raio de ideia esta de querer crescer, de sermos crescidinhas, não sermos "bebés" nas relações, não resolver tudo com birras (ai ai! que ainda fazemos tantas junto umas das outras... mas ainda bem que as podemos fazer umas com as outras, que sabemos porque as fazemos, e que temos consciência que as fazemos, ou que esse saber e essa consciência vai crescendo, e que conseguimos contê-las nas outras, embora nem sempre... E ficamos aflitas, quando não conseguimos... Sentimo-nos incompetentes enquanto amigas, o que não é nada fácil de sentir...), com amúos, com "não gosto mais de ti" ou "acabou!", com "tolices" do género... Que nem sequer nos protegem... Magoam-nos a nós, e aos outros... Esta mania de querer crescer parece-me muito inteligente! Ainda bem que a temos.

Quem se perdeu no meu discurso, hã?

Bom!!! Se fossemos gajos (assim, grandes maus e feios) em vez de ter passado uma tarde no Bar do Moinho e no Café do Grilo a beber chá, comer queques, no meio de notícias sobre estágios, trabalhos e de muitos silêncios, teríamos ido para uma tasca ver os jogos do Sporting (em primeiro, e mesmo sabendo que estou sózinha), Benfica e do Porto, bebíamos umas jolas (bejecas, ou loirinhas, ou ruivas, que agora também há ruivas, e até morenas) comíamos tremoços, e ficávamos muito contentes com o convívio e a conversa (insultos, gritos de guerra e coisas que tais) que implica ver um jogo de futebol (e na TV, ainda por cima)... E depois estou tentada a dizer que continuaríamos o convívio vendo um filme menos politicamente correcto (menos porque o que se vê na política também não é muito correcto... e isto é um trocadilho, mas até faz sentido). Bom, se fossemos gajos provavelmente não tínhamos passado o domingo a discutir relações (ou ralações como gosto de dizer) e seríamos mais estúpidas e, por ventura, mais felizes.

Agora a sério... Já ouviram algum dos vossos (e nossos) amigos dizerem que partilharam uma tarde a falar sobre o que sentem uns pelos outros, e como estão magoados uns com os outros, ou como se estão a afastar e o que podem fazer para que isso não aconteça?

T.P.C. (à boa moda de qualquer professor): descobrir uma situação no masculino, como a que acima foi descrita. Boa sorte! (Eu hoje não faço o T.P.C.!!! :P)

Mas como não acredito que estarmos felizes e estúpidas a ver um jogo de futebol fosse melhor, acho que foi um domingo muito bem passado, cheio de conflitos, mas sobretudo, cheio de relação (e ralações, lá está...), ou pelo menos, tentativa de resgate das relações (mais íntimas) perdidas (a meu ver, pelo menos)...

Tenho esperança que a resolução destes conflitos leve a melhores tempos de convívio, sem silêncios de ausência, de desconhecimento, de falta de entendimento. Melhores convívios, cheios de divertimento e partilha. Cheios de empatia pelos sentires dos outros.

Já me estou a alongar, mas não é nada de novo. Gosto de escrever.


Beijo para cada uma.
Andreia


PS. E quem não teve presente, está um pouco "à nora" (não sei se o Diogo Infante e a Flor já explicaram o que quer dizer esta expressão, mas eu até gostava de saber...), não é, Nessa e Sarita? :)

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Quem me leva os meus fantasmas

... Num curto momento de reflexão, pensei, quero escrever...
Mas o que? Mas como, mas para quem? Censurei o que escrevi, apaguei e deixei só isto:

(...)

Estou entre dois caminhos, tenho de escolher...

Afinal. "Quem me leva os meus fantasmas?"

http://www.youtube.com/watch?v=sqK7Ys155j4&mode=related&search=

Sobre a nossa conversa mais recente...

Encontrei esta imagem e gostei...só não gosto da rapidez com que o tipo vermelho encontra a solução...porque me parece que encontrar soluções leva tempo e ás vezes alguns (muitos) desencontros e respostas ao lado e mesmo conflitos...talvez (não sei!). Gosto da ideia de não olhar para o problema (o tipo cinzento a cair) e de olhar para o lado para encontrar a solução (olhar patologia vs. olhar o desejo e o desenvolvimento). E é engraçado como o tipo cinzento tinha que ter aquela caracteristica especifica (um focinho daquele tamanho) para a solução ser adequada (com uma formiga não era uma boa solução - digo eu!).

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Peripécias de rua

Inspirada pela Cris também vou partilhar:

Então aqui vão as peripécias da rua:

Encontrámos um utente a estacionar carros e depois de falarmos um pouco com ele e também de lhe pedir algumas informações sobre a zona, despedimo-nos:

- Ok então até a próxima, nós vamos passando para falar consigo.
Ao que o sujeito responde:
- Ok passem cá que eu dou-vos uns diques!!!

A partir desta conversa este sujeito passou a ser por nós conhecido como o X Diques!

***
Ontem voltámos à casa da familia de 7 pessoas.

A miuda de 3 anos brincava com uma casinha de bonecas e ao mesmo tempo com pedras. A minha colega perguntou:

- Então o que é isso que tens na mão?
- São Animais
A minha colega agarrou numa pedra e perguntou : que animal é este?
- É uma pedra!

***
E já imaginaram o que é encontrar um surfista cheio de bom aspecto saido de um abrigo nocturno?
Ou apanhar uma data de pulgas numa das noites de trabalho (ehehhe, não fui eu, se fosse, não achava grande piada).

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Peripécias no sol nascente...

Em Coimbra

Um utente pergunta à psicóloga:

- Vou ali fazer chichi ao rio. O que é que acha?

(...)

Outro responde:

- Ó X, tu tens uma granda pancada! Não sabia!

Responde o X:

- Tu achas que andamos aqui no Sol Nascente, porquê? Porque somos muito saudáveis mentalmente?!!


Ainda em Coimbra

A psicóloga:

- Ó Y tente não estar sempre a deitar-me gafanhotos pra cima!

O Y:

- Como é que sabe que não são gafanhotas?!

sexta-feira, 11 de maio de 2007

New York New York

Start spreading the news!
Nova Iorque é de facto uma cidade deslumbrante. Logo que possa vou colocar aqui neste lindo blog uma foto tirada na big apple.
Mil desculpas por só agora dar o ar da minha graça. O blog está tão bonito e interessante que até estava com medo de não ter nada assim tão interessante para aqui "postar". Mas cá vai de qualquer modo! Adorei esta ideia. É simplesmente delicioso! Um beijinho muito grande Andreia, Nessa, Sara, Lurdes e Marta...

Cristina

A propósito da pobreza humana….

Algures por onde ando vive uma família num anexo ao fundo de um quintal, um casal e 5 filhos numa casita, repartida em duas divisões minúsculas com menos do espaço necessário, talvez até para uma pessoa só.. Os pais dormem numa cama individual, os filhos dormem num beliche, o mais velho na cama de cima e os outros 4 na cama de baixo. Não têm mesa, as crianças comem no chão, lavam a loiça no quintal e a casa de banho também se encontra no quintal. As crianças de olhos azuis riem-se para nós e a de 3 anos pede-me para a ajudar a descascar uma banana, simbolicamente pede-me muito mais do que isso. Existem ratos na casa e muita humidade, a mais nova de todas as crianças tem atraso no desenvolvimento, os pais não trabalham…

Algures por onde ando vivem dois homens da mesma família numa (ruína de uma) casa de pedra, com uma só divisão. A casa encontra-se no meio de um terreno, escondida entre ervas. Lá dentro há um fogão a lenha, duas camas e pouco mais, de dentro da casa vê-se o céu. No Inverno os dois homens acordam como se estivessem a dormir na rua, ensopados em água da chuva. O telhado (ou o que resta dele), encontra-se coberto com ervas e eles dizem: “o telhado até está bonito”.
A casa não tem água nem luz. A água que têm é um fiozinho que corre no quintal que dá para tudo o que fazem. Tomam banho em alguidares, lavam a roupa em alguidares. Fazem as suas necessidades por entre as ervas que rodeiam a casa. Nenhum deles trabalha, nenhum deles recebe subsídios e os dois fazem biscates para ganhar algum dinheiro, mas um deles diz-me “ás vezes passa-se fome”. O único apoio que têm é da igreja que se limita a dar um pacote de arroz ou de massa de vez em quando. Mas, ainda há mais bocas naquela casa para alimentar, um cão pastor alemão e três gatinhos, a gestão de tudo aquilo é muito bem racionada. Perguntamos ao mais novo porque não trabalha, ao que nos responde que não consegue trabalhar pois não tem dinheiro para pagar as despesas do primeiro mês. Diz ser mais fácil encontrar trabalho a cerca de 30/40 km de onde vive e logo não tem meios para comprar o passe no primeiro mês, nem pagar a alimentação, assim mantém-se ali, vivendo um dia de cada vez, fazendo uns biscates. Chegou a fazer algumas horas de jardinagem perto de casa, onde lhe pagavam 100 euros por mês o que já dava para se orientar. Tem um dinheiro de parte: 25 euros poupados, para caso necessite de alguma coisa. Não é consumidor de drogas, não é alcoólico não têm nenhum problema físico que o impossibilite de trabalhar. O mais velho, esse sim é alcoólico, esse já idoso apanha caracóis e vende nas redondezas. Ao fim da tarde aguarda os amigos para beber uns copos, de manhã acorda com o dellirium tremens por abstinência do álcool.